“Aquilo que é superável, não é relevante”

Na total ausência de amor próprio ainda tento me recompor.

 Como em um jogo de tabuleiro, procuro me manter focada na jogada do outro jogador com a certeza de que, para permanecer viva, ganhar, ou elucidar algum mistério a necessidade de me manter no auge da concentração eleva-se cada vez mais.

Na esperança do talvez do algo daquilo que já não é mais ainda sobreviva.

Me sacudo desesperadamente procurando encontrar algo que ainda mantenha essa sensação de amor total viva mas não acho nem migalhas.

“O que foi, passou sem reconsiderações futuras“.

Me invado por completo, na tentativa de estudar somente o que superar e ou o que relevar e me deparo com muitas situações, chegando até a me comparar à alunos repetentes que pensam que muito sabem quando na verdade não sabem nada.

Tento-me reerguer, manter-me na certeza de que o superável não é relevante, procurando não ter comportamento de monge que tudo aceita/perdoa.

Guardando tudo em caixas

As velhas feridas remoídas

Não me sinto luxo, passo longe do lixo

Já não sinto calor, tão pouco sinto frio

Na velha certeza da balada de mais um amor perdido

No desperdício do risco

Já não existe o fixo, nem o velho vício de amor

Ossos do ofício.

Como arranhar porta trancada

Bater a maçaneta na cara

Estraçalhar o que não apanha com as mãos

Quebrar gelo com as mãos cansadas.

 

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Em uma certa manhã, ela encontrou a solidão como companhia em sua cama em sua vida. E devagar levantou-se, fitou com o relógio, colocou suas mãos sobre seu rosto borrado pela maquiagem da noite anterior e calçou sua velha pantufa acinzentada.

Enquanto se banhava, sentiu a importância da ausência de ser afagada toda manhã por quem realmente a amava. Então se lembrou de uma conversa que havia tido com um certo alguém que se dizia sexista, mas que desconhecia que essa palavra não condizia com a necessidade de sexo e sim em dominar o oposto…um divisor de águas…uma lágrima.

Sorriu… Um sorriso triste, manso. Vestiu-se e apesar de adulta percebeu que ainda anulava sua vocação para felicidade.

“Como são as coisas não?” pensou enquanto escovava seus cabelos e como em um desabafo claro, lindo e urgente mergulhou em um mundo de poesias, em uma necessidade de algo novo que a dominava, tal como comer quando se tem fome, de sentir e ser sentida, tocada, admirada, percebida por ela mesma pela primeira vez.

Ser cúmplice, pertencer, estar;

Se cuidar para não desmoronar…

Sentiu fome de paisagens cheias de luz, do mar, da brisa gelada, da flor, do cheiro de terra molhada, de pés descalços… Tudo tão limpo de cristalino como gelo fino.

E o som da chuva que batia no telhado se misturou com a voz do rádio… Percebeu estar completamente tomada… Por ela mesma… e as expectativas…ah…essas vinham como um novo brilho para vida.

 

Nas ruas, pela janela do ônibus, naquela manha fria de julho, tudo o que ela via era a fumaça da neblina, eram as pessoas, era a pista úmida molhada pela chuva fina que caia sobre as mortas paisagens de concreto manchadas e marcadas pelo tempo e pelo desprezo, um desprezo generalizado de uma realidade ainda conhecida por poucos.

Estava tudo tão fora do seu senso comum, ou era ela quem se desligara … ? Sentia-se fora de tudo que a consumia até então, um completo no sense , algo que não sabia como se esquivar. No entanto, a sensação de sentir-se excluída da sua própria vida por sua vontade, não tornava nula a possibilidade de novas alternativas.

Casais apaixonados se abraçando em página de revistas alheias, paisagem nublada, metódica, sem gosto sem cheiro, perversa, infeliz.

O frio a confortava e ela escutava vozes bem no fundo dela que diziam que suas escolhas talvez não foram as mais sensatas mas o atual momento demonstrava com sinais claros , comparados aos para – raios que se sustentam no topo de prédios , desses que mostram aos aviões que eles estão próximos da superfície que mesmo que parecesse errado, ela estava no caminho certo, seu coração estava certo.

Aquele trajeto matinal e cotidiano ao centro mesmo que penoso,era eficaz para que ela pudesse apesar de não parecer se perder entre sorrisos e gestos de tempos atrás, gestos incertos e nada coerentes, que ela pudesse se perder na certeza de um momento íntimo e intenso…

Se prender e se perder na fração de segundo congelada pelo tempo, no fluxo que a paralisava e a fazia tremer…. tremer o corpo inteiro.

Percebeu então que o concebido por saudades não era o que eu sentia até então, o paradoxo descontente e ineficaz …saudades que aquela fração de tempo que não volta mais…

Foi quando brindou com a monotonia do presente a lembrança dias em que vivia plenamente a loucura desajeitada da sua rebeldia junevil. Recordou então que, deliciosamente se esbaldou, provou os melhores sabores, conheceu o amor e a dor, brincou, se dopou, dançou…

Foi então que ela chorou, e acabou que, em muitas noites seguintes de dias iguais e sem cor encharcou travesseiros, se descabelou… Teve insônia, se lembrou das noites coloridas consumidas na boêmia, dos amigos loucos, dos papos utópicos e das vezes que tremeu e temeu.

Chorou por conta da muita dificuldade que andou tendo para lhe dar com o desapego, Teve medo da saudade e se indignou por muitas vezes, até que entendeu que não precisava mais olhar para trás. Tentou por fim, continuar a levar a vida sem muito pudor e se fez inteira, para na medida do possível curar a dor da tristeza enquanto se adaptava sua nova vida e sem muitas pretensões ela deixou o tempo tomar conta.

***

Toda aquela reflexão póstuma a deixou atônica por um longo período de tempo, contudo lhe foi muito eficaz perceber que apesar da ressaca moral, aquele todo daquele momento fazia sentido, um sentido claro, impar, universalmente transparente que transcendia tudo que ela desconhecia pensar até então.

Naquela tarde morna ela estava só, serena, sem medo do escuro e ou da solidão, sem medo do vazio e da doação.

Foi quando aquele aquele olhar ondulado, ela-e-ele, ele-ou-oque-há-de-vir-e-ela, simétrico, fixo …olhar que envolvia e desenvolvia sem embaraço, sem controle mutuo…

Aquele toque,mãos deslizando lentas e leves sobre a pele das suas mãos, carícias quentes e escorregadias por entre seus dedos…dedo por dedo…toque por toque…pleno…saudável…propriamente tudo se fez bonito.

Sorriso largo, verdades banais ou o que quer que fosse… Um tempo tão verdadeiro, a sugestão implícita em um único gesto..o novo…a mudança…o desconhecido…e os desejos, ah,,,que desejos..! plenos, vinham como estrelas e se aconchegavam devagar enquanto ela debruçava a sua cabeça sobre seu ombro tenso mas afável.

Doces palavras, baixinhas, brincadeiras, carinhos mornos, o caminho longo…Deveras não se compreendia porque faziam diferente do que deveriam ter feito e assim se misturaram por um segundo, fizeram de repente o que deu na cabeça como loucos delirantes que fazem tudo diferente de todos deixando assim, um rastro de luz, naquele fluxo de tempo.

Puderam estar e viver, completamente por inteiro, por puro encanto… O sempre ótimo que tão fora da realidade se encontrou…atemporal escondido…que os salvou por um instante curto a certeza da melancolia e da solidão.

Todo aquele tempo que passava devagar, arrastado quando estavam assim parados lado-a-lado… tentando se equilibrar com um pouco de novas possibilidades… Ele sorria e ela sentia que tudo aquilo era de acabar consigo.

Era involuntária, a lembrança daquele abraço, da tentativa passiva dele em aconchegá-la em seus braços, de encaixá-la, daquele criterioso sentido aguçado, do sorriso largo… Do ultimo olhar embaraçado, o toque da despedida, tudo ali em um único instante.

Ela permaneceu sonhando acordada, assim, acolhida naquela nuvem de lembranças, ora perplexa, ora simplesmente acomodada em toda aquela energia que sentia. Ouvindo vozes baixinhas zumbindo ao pé do seu ouvido, a voz de todo aquele momento cômodo, de todos aqueles palpites vãos…

Não era de sua culpa toda aquela projeção, nem a possibilidade de enlouquecer que se dividia ferozmente com as juras de se reerguer as suas próprias custas e de apenas sorrir… O que alias latejava em sua alma, o que a deixava em um estado visceral, pressionada, ainda introspectiva era a vontade de esquecer que oscilava entre momentos só seus de expectativas.

Sem intenção de convencer ou insistir… Somente a possibilidade clara de sentir saudades…somente saudades.

“Perde-se a vida a desejá-lo tanto”…

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As caixas cheias de particularidades empilhadas e roupas dobradas em nossas malas e em sacolas plásticas era a mais pura síntese ao termino do meu casamento A gordura do fogão, a falta de paciência e os móveis desmontados espalhados em todo o espaço eram a certeza de que quando conhecemos alguém e decidimos passar o resto da vida com ela parece ser tão superficial quando se torna eterno no seu fim. Dois cúmplices tornam-se estranhos quando tentam se adaptar a uma realidade já não tão perfeita e não mais aceita por ambos. Tudo concedido e concebido por nós dois. Trágico?Talvez, mas quando pensamos no ato de tentar suturar um casamento completamente acabado a tempos tudo posteriormente pode ser interpretado até com um pouco de sadismo.. O que é mais dolorido? O ato de perceber que a separação é a melhor alternativa? O difícil é se adaptar ao ato de dividir o mesmo colchão esparramado da sala. Em meio ao barulho da TV acalentando sonhos mortos. Desligando-se do retrocesso e das possibilidades vindouras já não tão atraentes por si só.

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